terça-feira, 27 de março de 2018

Não conheço o Manuel Reis




Vou usar o presente do indicativo. Não conheço o Manuel Reis. Falei com ele três ou quatro vezes. Sei bem quem é mas desconfio que mal saiba quem sou. À luz dos mais idiotas padrões sociais, o Manuel Reis é uma pessoa que fica bem dizer que se conhece. Presumo que por isso mesmo, quando com ele me cruzo, nunca o maço com cumprimentos supérfluos.

Começo pelo que menos importa que, importando pouco, foi o que mais importou para me achar no direito de falar sobre alguém que não conheço. Acho que o Manuel Reis tem estilo. Acho que o Manuel Reis tem pinta. Também acho qualquer uma destas frases um tanto ou quanto estúpida mas acho, de forma objectiva, que o Manuel Reis tem uma identidade visual interessante. E foi seguramente por isso que, algures em 2009 quando o vi na rua, lhe sugeri um retrato. A recordação que tenho desse momento é de uma afabilidade extrema. A maior parte de nós não sabe dizer não. Não sabe rejeitar uma oferta, um convite ou um argumento de forma elegante. Não estou a brincar: é uma dificuldade transversal a muita gente. Claramente, o Manuel Reis não padece desse problema. Porque aquilo que o Manuel Reis fez foi dizer-me, de uma forma igualmente clara, que não estava interessado em ser fotografado (de resto, a sua indisponibilidade em aparecer quando aparecer parece ser o oxigénio de meio mundo, não me é de todo indiferente). Mas não se limitou a rejeitar-me não me fazendo sentir rejeitado. Fê-lo lisonjeando-me. Não recordo as palavras exactas. Mas sei que foram mais que as suficientes para ter percebido que o trato daquele homem é uma espécie de aberração estatística. Por isso, quando ontem li algumas crónicas escritas por pessoas que aparentemente o conhecerão bem, não achei que  tivessem sobrevalorizado o seu cavalheirismo. Alguma coisa este homem tem de singular. Ao ponto de, pelas primeiras vezes, me ter sentido inspirado por um homem que pensei ser homossexual (não conheço o Manuel Reis mas já ouvir falar dele o suficiente; assumo que é gay). Poderá parecer um detalhe irrelevante ou elementar homofobia. Não creio que seja nenhum deles. Admirar um homem gay não é um processo óbvio para quem, entre as coisas pelas quais mais se habitou a admirar num homem, está o gosto pelas mulheres. Quando o Manuel Reis me respondeu, devo ter pensado que poderia ter as mulheres que quisesse. A sobriedade, o tom de voz, os gestos, a expressão verbal. Houve ocasiões na vida em que olhei para um homem mais velho e pensei que gostaria de vir a ser como ele: acho que aquela foi uma delas.

Pelo que tenho lido o Manuel Reis é conhecido por um mar de coisas. Vou falar apenas sobre aquela que estou habilitado a comentar: o Lux. Ao contrário daquilo que foi um dia tradição neste blogue, não vou despender um momento que seja a elogiar o esteta ou o legado que o Lux herdou dessa sua condição. A primeira coisa em que penso quando lembro ambos é outra: que a urbanidade com que me negou a foto é, de alguma forma, a mesma que é promovida no contacto entre quem lá trabalha e quem lá dança. Há um episódio que é particularmente esclarecedor. Na verdade há uma porrada deles mas este é o mais fácil de entender. Disse-me um dia um segurança do Lux: “Na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes. Aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Alguém que como eu, entrou tantas vezes em discotecas e sabe quanta merda pode acontecer numa pista de dança, entende bem as consequências destas palavras (e quem nunca gostou de sair mas tem acesso ao youtube também). Não sei por exemplo, se o Lux paga atempadamente aos seus fornecedores. Que é algo que também diz muito sobre valores e ética de quem gere um negócio. Não faço puto ideia. Mas permito-me uma expectativa sobre o tema. Porque senti sempre que a realidade do Lux se distanciava de um conjunto relativamente homogéneo de atitudes e comportamentos (entenda-se, práticas merdosas que convergem no desrespeito pelos clientes) fáceis de localizar nas noites de Lisboa e de tantas outras cidades do chamado mundo ocidental. Mais por isso que por tudo o resto que se costuma valorizar numa discoteca, disse algumas vezes que o Lux é a melhor discoteca do mundo. E talvez seja importante lembrar algo tão elementar e tantas vezes esquecido: as discotecas podem ser coisas importantes na vida das pessoas. O Lux foi importante na minha. E com toda a honestidade, e sem pretensão de assinar mais que um simples elogio a um desconhecido, desconfio que as particularidades daquele espaço têm um nome: o nome do tal homem que não conheço.

As pessoas são, mais que tudo, aquilo que são entre os seus íntimos. Mas as pessoas não são apenas aquilo que são nos seus círculos de proximidade. As pessoas são também aquilo que são nos contactos efémeros, nos gestos rotineiros e nas pequenas impressões que deixam àqueles com quem se cruzaram um dia. E por tudo isso, pelo que ouvi dele e dizer sobre ele (e pelas correlações que me permito estabelecer entre umas e outras coisas), tenho dúvidas que o Manuel Reis não mereça mais que este texto


terça-feira, 6 de março de 2018

Observar o OBSERVADOR


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Em rigor, não se trata tanto de estar atento ao OBSERVADOR em particular mas a toda a Comunicação Social. Acontece que, no que ao jornalismo diz respeito, tenho o OBSERVADOR como uma das referências nacionais. Significa isto que acedo a ele mais vezes e que estou mais atento às suas publicações. Mas significa também que espero do OBSERVADOR a mesma transparência que este jornal parece exigir ao governo, a pessoas singulares ou colectivas, empresas públicas ou privadas, clubes ou fundações. Significa que espero que o OBSERVADOR cumpra a lei, respeite o seu próprio estatuto editorial e seja transparente com os leitores.

O que me faz questionar a transparência dos órgãos de comunicação social? Uma coisa à qual se costuma chamar de “conteúdo patrocinado”. Esta expressão tem sido usada para designar peças de natureza comercial ou publicitária que, de forma geral, são produzidas ou co-produzidas pelos mesmos media que as publicam. Note-se que, apesar de alguns órgãos de comunicação social se referirem a estes conteúdos como editoriais, a sua produção e publicação é suportada pelos anunciantes. Infelizmente, a prática comum – contra os belos votos editoriais que se partilham em páginas cheias de palavras bonitas – é a identificação deficiente da natureza promocional destes conteúdos.

A legislação sobre esta matéria – Código da Publicidade, Decreto-Lei nº 330/90 de 23 de Outubro – apresenta uma linguagem simples e acessível.  Segundo o número 1 do artigo 3º (conceito de publicidade), é publicidade “qualquer forma de comunicação feita por entidades de natureza pública ou privada, no âmbito de uma actividade comercial, industrial, artesanal ou liberal, com o objectivo directo ou indirecto de: a) Promover, com vista à sua comercialização ou alienação, quaisquer bens ou serviços; b) Promover ideias, princípios, iniciativas ou instituições”. O número 1 do artigo 8º (princípio da identificabilidade) parece ser ainda mais fácil de entender: A publicidade tem de ser inequivocamente identificada como tal, qualquer que seja o meio de difusão utilizado”.

Este post versa sobre algo tão elementar quanto isto: os órgãos de comunicação social têm o dever deontológico e a obrigação legal de informar as suas audiências sempre que um dado conteúdo é pago por uma outra entidade. Sempre que um artigo deva a sua ideia, concepção ou publicação a um pagamento, patrocínio, apoio, viabilização (ou qualquer outra acção que, de uma forma mais ou menos esclarecedora, se reporte a uma contrapartida financeira) cabe à publicação informar o leitor de forma inequívoca. Porquê? Porque um depoimento pago não pode, jamais, ser confundido com uma opinião independente.

O artigo que me fez rever as práticas dos órgãos de comunicação social foi patrocinado por uma consultora imobiliária. Comprar ou arrendar uma casa é, tradicionalmente, a opção com maior impacto na vida financeira dos portugueses. Dito isto, não lhe parece importante poder distinguir a produção jornalística, do discurso da entidade cuja actividade é promover a compra e venda (ou o arrendamento) de imóveis? E se uma empresa da indústria farmacêutica patrocina um artigo sobre o seu novo medicamento? Não deve ser claro se o texto foi promovido por quem produz ou distribui o fármaco? Não tenho direito a saber se a peça foi escrita por um copywriter ou por um jornalista? E já agora... será que estas duas funções podem ser desempenhadas pela mesma pessoa? O artigo 3º (incompatibilidades) do Estatuto do Jornalista sugere que não. E terá sentido, que actividades semelhantes às de uma agência de publicidade, sejam desempenhadas desde a redacção de um jornal? Que independência pode reclamar esse título no dia em que tiver de questionar, em registo jornalístico, a mesma marca que se habituou a pagar por aquilo que a redação escreve sobre ela? Estejamos a nós a falar de saúde pública ou do último jogo para a playstation: os media têm obrigações perante nós. Estarão a cumpri-las? Acho que é importante assegurar que sim. E se cabe aos leitores tentar educar e sensibilizar os órgãos de comunicação social, cabe às entidades competentes assegurar que estes cumprem a lei.

Neste link está a reprodução exacta e integral da reclamação que dirigi à ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL no passado dia 1 de Março. Mas termino da forma que comecei: acredito que, mais que uma questão particular do OBSERVADOR, este é um problema da generalidade dos media. Basta aceder ao Google e escrever conteúdo patrocinado para ver os mais ilustres órgãos de comunicação social atropelarem lei e bom senso. Se alguém perder ali umas horas, tenho a certeza que mais reclamações vão surgir. E se isso acontecer, uma coisa é certa: os media vão tornar-se em algo melhor do que aquilo que são hoje. E isso vale muito mais que qualquer hipótese de escrever no OBSERVADOR

(artigo actualizado às 14:58h do dia 7 de Março)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Tornozelos, meias e alguma idiotice


As cores do Fabrizzio (2) As cores do Fabrizzio


Estas fotos não são novas. Publiquei-as aqui a 14 de Junho de 2011, tendo sido tiradas dias antes em Madrid, mais precisamente a 10 de Junho. A primeira conclusão – pouco abonatória para a minha pessoa – é que, em pleno dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, andava a passear pela capital do reino que mais atentou contra a soberania nacional. A segunda – aparentemente insignificante mas de uma pertinência cirúrgica a estes dias  tem que ver com a relação entre o visual primaveril/estival do Fabrizio e o tempo que fazia em Madrid. Segundo este relatório meteorológico, às 11:59h, hora a que tirei estas fotos, estariam 21˚C. Sendo que a temperatura máxima em Madrid, no dia 10 de Junho de 2011, atingiria os 25˚C.

A ordem das fotos na publicação original é precisamente a contrária à de hoje. Porque visualmente falando, o detalhe não se sobrepõe ao todo. E porque humanamente falando, por mais impressionantes que fossem os sapatos, ter-me-á importado mais a identidade de quem os escolheu, que a escolha em si mesmo. Hoje as circunstâncias são outras. Esta semana será talvez a mais fria que Portugal já viu este Inverno. Os planos de contingência de Lisboa e Porto foram activados na noite de ontem, há já alguns dias que neva em Madrid e acredito que, a estas horas, o Fabrizio tenha braços e pés devidamente resguardados.

Esta madrugada estava na Gare do Oriente à espera do comboio que me haveria de levar ao Porto. À minha frente tinha uma série de pessoas agasalhadas de todas as formas possíveis e imaginárias. Gorros, luvas, estolas, cachecóis. Camisolas de gola alta, calças de bombazina, casacos forrados a pele de carneiro. Algumas das que levavam estes agasalhos estavam, surpreendentemente, de tornozelos despidos. Em alguns casos com meias curtas (cuja extremidade era possível vislumbrar, entre o calçado e a pele), noutros a sensação era de que não haveria meias de todo (mas dou o benefício da dúvida: as peúgas seriam curtas o suficiente para não serem vistas por baixo do calçado).

Cada um de nós tem uma percepção muito própria do que é quente ou frio e do calor ou fresco que sente. Cada um tem os seus termómetros e termóstatos (há até quem permaneça indiferente sob temperaturas extremas) e qualquer um de nós já deu por si a pensar que se vestiu de mais ou de menos para a ocasião, seja ela social ou meteorológica. Mas não é nada disso que está em causa. O que está em causa é uma tendência visual de indumentária que, para muita gente, se sobrepõe à razão de ser da própria indumentária. Aventurei-me a fazer algumas perguntas sobre a nudez dos tornozelos no pico do Inverno... As respostas alternavam entre a corrente negacionista (“não, não tenho frio algum”) e o esclavagismo esteta (“já não me consigo ver de outra forma”). Em comum? Uma ligeira sensação de desconforto quando questionados. Gerada, creio eu, pelo reconhecimento interior do quão ridículo é dar vida a esta expressão visual com temperaturas perto de zero.

Se há flagelos no mundo mais graves que parte da humanidade fingir não sentir frio no mesmo sítio que tantas vezes se ocupou de proteger? Seguramente. Desde que não sejam responsáveis por congestionar as urgências ou pelo colapso do Serviço Nacional de Saúde, os tornozelos de uns não interferem com a vida de outros. E não são estas pessoas livres de fazer o que mais querem? Claro que são. Mas quando milhões de pessoas um pouco por todo o mundo, por motivos de natureza estritamente visual, “deixam de ter frio” na mesma zona do corpo que se esforçaram por abrigar uma vida inteira, algo está mal. Não deixa de ser curioso que, em tempos de liberdade e autodeterminação sem precedentes, sejamos todos tão carneiros e... perdoem-me os que me são queridos e aqueles que nunca vi antes... tão profundamente idiotas


p.s. – Pese embora a irrelevância destes factos partilho-os aqui. Há 20 anos não havia meias curtas. Lembro-me de dobrar as meias de tamanho convencional para – quando estava de calções – não ter o cano da peúga descoberto para além dos ténis que, desprovido de função, ficava abandonado ao estatuto de ruído visual (anulado pela dita dobra). Não disse? Digo agora. Boa parte das minhas meias são curtas. Mas repito: essa não é a questão (acho que insulto mais o leitor ao sentir a necessidade de me explicar que correndo o risco de lhe chamar idiota). Também tenho uma porrada de gorros em casa e não é por isso que os levo para a praia no pico do Verão

(artigo actualizado às 11:47 do dia 7 de Fevereiro)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Orlando Figueira, Manuel Vicente e companhia limitada



Quando acedo ao Google (https://www.google.pt/) e escrevo Manuel Vicente o conhecido motor de busca exibe 62 300 000 resultados. Quando recorro ao mesmo link para fazer uma pesquisa por Orlando Figueira deparo-me com 485 000 resultados. Só para se ter noção do quão significativos são estes números, uma busca sobre Cristiano Ronaldo gera 41 900 000 resultados. Mas, a bem da honestidade intelectual (Manuel é, efectivamente, um nome próprio significativamente mais comum que Orlando), importa estreitar a pesquisa. Acendendo à mesma página da Google (https://www.google.pt/) e escrevendo “Manuel Vicente” (tomo a liberdade de assumir que o leitor não sendo – como eu também não sou – um expert em mecânica de motores de busca, entende o impacto que a utilização das aspas produz na pesquisa), o Google exibe 1 610 000 resultados. Uma busca por “Orlando Figueira” nas mesmas condições gera 146 000 resultados. Há mais Manueis Vicente e Orlandos Figueira na terra mas parece-me que este é (ainda que o angolano tenha um historial de visibilidade pública que o português não possui) o mais transparente dos caminhos para perceber o quanto se fala e sobre quem. Conclusão? É mais relevante para os media nacionais a possibilidade de haver um político estrangeiro corruptor que um magistrado português corruptível.

Para ser franco nunca tinha ouvido falar de Manuel Vicente ou Orlando Figueira até há cerca de um ano quando surgiram, na imprensa nacional, os primeiros artigos alusivos à Operação Fizz. Angola é obviamente um país próximo e, por isso mesmo e à partida, despertará sempre mais curiosidade e interesse em Portugal, que qualquer outro país que não partilhe connosco, ou uma fronteira terrestre ou o idioma oficial. Reconheço que é assustadora a ideia de que alguém, em posição de poder vir a assumir (como de resto veio a suceder com Manuel Vicente) o cargo de Vice-Presidente de Angola pudesse: 1) considerar corromper um magistrado estrangeiro, 2) conseguir levar a cabo tal intenção. Já para não falar que, dadas as circunstâncias (e deve haver angolanos a pensar nisto), o mais elementar raciocínio lógico nos convida a imaginar que qualquer ideia dessa natureza e correspondente aplicação prática seriam ainda mais fáceis de concretizar no seu próprio país. Angola é, com toda a justiça, o que se costuma designar por país irmão mas convém assumir – de resto, os media portugueses já nem se esforçam por disfarçar – que parte desta percepção de irmandade parece, muitas vezes, sustentada mais pelos dólares que uma estreita e pouco representativa amostra da população angolana estoira em Lisboa, que pelas inúmeras afinidades históricas e culturais que existem entre os dois povos.

Manuel Vicente
Sobre este senhor conheço apenas a sua trajectória profissional (em 62 300 000 resultados encontra-se facilmente alguma coisa), que é acusado pelo Ministério Público da prática dos crimes de corrupção activa, branqueamento de capitais e falsificação de documento, e o que Miguel Relvas disse sobre ele há semanas “(...) Eu conheço o Engenheiro Manuel Vicente. Conheci-o no passado no desempenho de funções e... tenho a certeza de que seria incapaz de cometer, como se irá provar, muitas das acusações que lhe são imputadas (...)”. Sobre o Miguel Relvas, as suas declarações sobre este processo (outro para quem tudo se parece resumir ao ex vice-presidente angolano e que, pelo simples facto de o incluir, descreve como um "não-processo"), e o desconforto que me causa pensar que assume, num plano informal, qualquer tipo de responsabilidades diplomáticas (terá sido recebido pelo Presidente da República de Angola em Luanda) não me vou alongar. Partilho apenas uma recordação súbita: no preciso momento em que vi estas declarações de Miguel Relvas lembrei-me (por via de um qualquer processo mental involuntário) de umas outras declarações, já com alguns anos, em que um senhor chamado Carlos Mota dizia “(...) É assim: se o Carlos [Cruz] é pedófilo eu também sou (...)”.

Orlando Figueira
Orlando Figueira é, quanto a mim (apesar de a imprensa nacional o parecer querer relegar para a categoria de supporting actor) a estrela da narrativa. Aquilo que mais me preocupa enquanto português não são os presumíveis excessos dum estadista estrangeiro (por mais próximo que esse país seja do meu) mas a presumível permeabilidade dum magistrado português aos ditos excessos. Porque o que mais importa a Portugal é saber se Orlando Figueira é ou não corrupto. Os factos do processo remontam ao período entre 2008 e 2012, em que Orlando Figueira esteve destacado no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), “(...) órgão de coordenação e de direção da investigação e de prevenção da criminalidade violenta, altamente organizada ou de especial complexidade (...)”. O DCIAP é um órgão de elite na arquitectura do Ministério Público e o departamento por onde passam processos como os casos/operações BPN, Furacão, Marquês, Monte Branco ou Portucale. Coincidência ou não (supõe-se que não) todos estes processos foram entregues a Rosário Teixeira (ou a equipas de procuradores das quais este fazia parte). E é precisamente a Rosário Teixeira que quero chegar porque não me ocorre melhor “desenho” para tentar demonstrar a todos o que parece preocupar a tão poucos. O que seria se Rosário Teixeira tivesse sido pago para incriminar José Sócrates? O que sentiríamos só de imaginar, no plano abstracto, que Rosário Teixeira pudesse ser corrupto? Surreal, não é? Orlando Figueira era colega de Rosário Teixeira no DCIAP à data dos factos que constam na acusação. E está ser julgado por isso. É real.

Dinheiro e Justiça
Não sei bem o que disse exactamente Paulo Portas (e em que contexto) para o Observador escrever que “O antigo líder do CDS/PP tem defendido que o assunto não é só da Justiça, mas sim um problema entre estados” mas consigo imaginar o que o Portas de há 30 anos diria disto tudo, incluindo do que supostamente veio a dizer 30 anos depois. A verdade é que, até agora e de uma forma geral, tenho ouvido António Costa e Augusto Santos Silva a dizer a única coisa que é aceitável dizerem. Por outro lado, o Ministro das Relações Exteriores de Angola “terá dito” ao Expresso o que este locutor diz que ele disse a partir do minuto 2:00 (emprego o "futuro do presente composto" porque o que o locutor diz não é o mesmo que as imagens da SIC identificam como citações de Manuel Augusto) e Luísa Meireles, jornalista experiente e redactora principal do Expresso, escreveu que “O desbloqueamento das relações políticas entre Portugal e Angola pode estar mais próximo, se a justiça portuguesa aceitar os termos de um compromisso que Angola propôs. (...)” sem sentir necessidade de explicar que quando diz “Angola” se está (presume-se) a reportar às autoridades judiciárias angolanas acabando por partilhar e reproduzir, de forma inconsciente, o equívoco recorrente da não distinção clara entre essas mesmas autoridades e os actores políticos. Os governantes angolanos sabem tão bem quanto os jornalistas portugueses o que é a "(...) separação e interdependência de poderes (...)" e sabem até que há um ex-primeiro ministro acusado da prática de 31 crimes, e de cujos governos fizeram parte os actuais primeiro-ministro, ministro dos negócios estrangeiros e ministro do trabalho, solidariedade e segurança social. Jornalistas, governantes e lobistas também deviam saber que, com este tipo de suposições, insinuações e declarações estão, em alguns casos, a fazer exactamente aquilo de que Manuel Vicente é acusado: condicionar a acção da justiça portuguesa. O dinheiro é uma coisa muito importante. Mas se no ano de 2018, a Justiça ainda tropeça nele, Portugal vale muito menos do que se pensa.

Não tenho uma opinião formada sobre se o processo de Manuel Vicente deve ou não viajar até Luanda até porque, como é comum nestas coisas, tenho lido argumentos aparentemente válidos nas comunicações das autoridades judiciárias de um e outro país. E há até quem defenda que se pode considerar uma 3ª via (não se preocupe, não passa por deixar Miguel Relvas decidir quem é ou não capaz de cometer crimes). Vá o processo para onde tiver de ir ou fique onde tiver de ficar, tão ou mais importante quanto a sua boa condução, é a garantia que nenhum agente político, económico ou financeiro, exerça sobre ele qualquer tipo de pressão. O resto são bullshits. E às 19:30h de hoje (hora a que todas as pesquisas citadas na introdução do texto foram feitas), o Google estava cheio delas

(artigo actualizado às 10:47h do dia 20 de Janeiro)

domingo, 5 de novembro de 2017

O Urban. O Urban Beach



Acho que, inicialmente, aquilo que me serviu de motivação para escrever o que quer que fosse que não houvesse sido já referido, teve que ver com o seguinte: saio à noite há cerca de 20 anos e quase sempre sem tocar em álcool. Mas mais que partilhar qualquer "maratona de sobriedade pela noite lisboeta", acho que falta dizer meia dúzia de coisas.

Sobre as acusações de racismo
Quase todos os artigos que li sobre o tema parecem ter sido escritos por pessoas que nunca saíram à noite. A gestão de clientes levada a cabo à entrada de bares e discotecas (em Portugal e um pouco por esse mundo fora) é feita segundo critérios de "selecção" que, chamemos-lhe aquilo que lhes preferirmos chamar, não passa de um termo socialmente aceite para aquilo que outros apelidariam de "discriminação". Mas sejamos francos: quando nos deslocamos a um dado espaço esperamos encontrar um dado ambiente que é definido, mais que por qualquer outra coisa, pela aparência daqueles que lá estão. Fica complicado levar demasiado a sério acusações de discriminação quando quase todos aceitámos e promovemos, na medida do nosso próprio sucesso à porta de uma discoteca, que cada lugar estabelecesse um ideal-tipo de clientela baseado estritamente na sua aparência. Não posso afirmar categoricamente que a gerência do Urban Beach é muito ou pouco racista e arrisco a dizer que, em 2017, e até ao seu encerramento, era possível encontrar mais “não brancos” no Urban do que aqueles que poderia encontrar em 2007 no Kubo ou em 1997 na Kapital. Por um motivo relativamente óbvio: o Portugal de 2017 é, ainda assim, um lugar menos racista do que era em 2007, e ainda menos que em 1997. O Observador (que, justiça lhe seja feita, teve um papel importante em todo este processo) publicou um artigo cujo título brilhava com a citação de um antigo porteiro do Urban Beach: “Pretos, é difícil. Ciganos não entram”. Infelizmente, isso não é motivo suficiente para me sentir no direito de acusar a gerência do Grupo K de ser, com maior ou menor incidência, aquilo que a maioria da população nacional é: um tanto ou quanto racista. Porque qualquer coisa parecida com “pretos não sei, ciganos nem pensar” é bastante representativo do que tantos portugueses sentem relativamente àqueles a quem permitem entrar em sua casa ou conviver com os seus filhos. Em caso de dúvida sugiro a consulta do termo "cigano" no nosso dicionário para moderarmos todos a autoridade moral com que chamamos racista a alguém. Dito isto... A selecção levada a cabo à porta do Urban agrada a quem lá vai. E ao que parece, vai lá muita gente. Menos de 48 horas depois do vídeo que exibia aquelas agressões brutais ter sido gravado e pouco mais de 24h depois de ter sido partilhado um pouco por todo o lado... quantas pessoas estavam no Urban Beach no momento em que foi encerrado pelas autoridades?

Sobre a conduta dos seguranças
Uma vez, no Lux, um segurança disse-me: “Na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes. Aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Esta observação diz muito sobre a forma como somos tratados num dado estabelecimento e sobre os motivos pelos quais esse tratamento é mais frio, respeitoso, inflexível ou tolerante. Ela vai ao encontro de algo muito fácil de se entender: a forma como os seguranças de uma discoteca (ou se fizerem muita questão... a forma como os funcionários de uma empresa de segurança contratada por uma dada discoteca) se dirigem aos clientes dessa mesma discoteca é definida, como é óbvio, pela própria discoteca. Todos sabemos que o álcool, rivalidades parvas, disputas amorosas e outras tantas coisas podem fazer duma pista de dança um lugar tenso. Sabemos também que a maior parte de nós é menos civilizado e paciente depois de beber quatro vodkas ou sete cervejas. E que os seguranças das discotecas (ou se continuarem a fazer questão... das empresas de segurança que trabalham nas discotecas) lidam diariamente com situações complicadas. Por essas e por outras é que existe uma certificação para o exercício das suas funções. Mas sejamos muito claros: o argumento de que a agressividade dos seguranças que estão ao serviço no Urban Beach é responsabilidade da PSG é absolutamente delirante. A administração do Grupo K tem, como qualquer outra agremiação, uma dada cultura organizacional. Dizer que as opções que dela resultam não se traduzem na escolha dos seguranças que lá exercem funções, na mensagem que lhes é transmitida e no tipo de interacção que estes homens promovem com a sua clientela, é a mais profunda manifestação de desonestidade intelectual.

Sobre a Kapital
Não há outra forma de pôr as coisas. A Kapital foi, durante quase 10 anos, o sítio mais aspiracional da noite lisboeta. Ainda me lembro da primeira vez que lá entrei. Mas também não me esqueci da primeira vez que, por culpa de um episódio aparentemente irrelevante, me pareceu que algo de errado se passava ali. O porteiro, que teria ido até ao interior da discoteca, descia uma escadaria quase vazia quando empurrou um amigo meu porque, tão simples quanto isto, ele se encontrava na trajectória mais curta da sua descida. Acabei por testemunhar, repetidamente, seguranças a dirigirem-se de forma agressiva aos clientes sem qualquer motivo aparente. Mas sejamos sinceros: não vi nada na Kapital que não tivesse visto também em outros estabelecimentos.

Sobre o Kubo
O Kubo era um espaço junto ao Rio, a uma caminhada curta do local onde se encontra hoje o Urban Beach. Basicamente era um conjunto de caixotes justapostos e sobrepostos que, verdade seja dita, pela sua disposição, decoração e iluminação, faziam um dos espaços mais bonitos de Lisboa. Mas foi lá que fiquei com a sensação que as noites passadas em sítios geridos pelo Grupo K podiam ser perigosas. Lembro-me de uma noite ter visto um segurança a empurrar clientes de forma agressiva sem razão aparente. Uma rapariga, provavelmente pouco habituada a ser atropelada no seu dia-a-dia, reclamou com o funcionário da discoteca. Ele recuou até junto dela e intimidou-a com um movimento brusco e uma frase que já não sou capaz de recordar. Claro que quando se vê um segurança dirigir-se a uma mulher desta forma fica-se com a sensação de que ali, algo de grave pode acontecer a um homem. Num outro dia, quando estava de saída, vi um segurança esmurrar um cliente. Não foi a primeira vez que assisti a um murro à porta de uma discoteca e cabe-me reconhecer que - entre esses episódios infelizes - a culpa não foi sempre da exclusiva responsabilidade das equipas de segurança. Mas acho que, numa dada consciência colectiva, nos habituámos a aceitar estes "azares alheios" com excessiva condescendência.

Sobre o Urban Beach
O Urban Beach acabou por atrair uma clientela mais jovem que os seus antecessores Kapital e Kubo (o Kremlin tinha um posicionamento diferente: a música era mais pesada e o ambiente menos convencional). Isto também se deveu, em boa parte, à afirmação do Lux como discoteca de referência. Curiosamente, uma das coisas que sempre diferenciou o Lux de todas as outras discotecas foi a urbanidade com que, de forma geral, o seu staff trata os clientes. Em rigor, foi talvez a discoteca onde terei sentido pela primeira vez que os seguranças estavam ali, verdadeiramente e como o nome sugere, para assegurar a minha segurança (e onde, em 20 anos de visitas assíduas, nunca vi um murro ou um pontapé). Mas voltando ao Urban: tive a percepção que naquele espaço do Grupo K os seguranças pareciam ser ainda mais agressivos que na generalidade das discotecas. Uma noite, a propósito duma abordagem completamente desajustada de um segurança, disse ao Gonçalo Rocha que achava que ali se maltratavam os clientes indiscriminadamente. Respondeu-me, meio sorridente, que talvez eu tivesse preconceitos em relação ao Urban. Torna-se difícil, alguns anos depois, recordar com precisão os episódios ou comportamentos mais duvidosos. Não tinha chegado a ver ninguém do staff desferir murros ou pontapés mas, por culpa de algumas reacções, e de uma ou outra narrativa, sentia que seria apenas uma questão de tempo. Até que uma noite, o tempo chegou. A narração que se segue é um excerto exacto (inclusive, com alguns erros de sintaxe) de um e-mail que enviei, na madrugada do dia 6 de Abril de 2015, à então Vereadora da Educação, Economia, Inovação e Descentralização, Graça Fonseca (actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa), a propósito de uma deslocação até ao Urban Beach, no fim-de-semana anterior. Muito mais que qualquer recriminação da ex-autarca por qualquer hipotética inação (que não teria como provar e, como tal, não me permito sequer sugerir) este é um esforço por me reportar aos factos na forma mais exacta que me é possível. Sem a leitura deste e-mail, guardaria daquela noite pouco mais que recordações vagas. Posso assegurar-vos apenas que, à data que escrevi este relato, os factos estavam absolutamente claros na minha memória. Desde aí, nunca mais voltei a um espaço do Grupo K.

(...) Quando chegava à entrada (ainda numa zona exterior ao recinto mas pertencente já, por assim dizer à área do edifício) estavam duas ou três pessoas (acho que eram dois homens e uma mulher) a ser expulsos/convidados a sair. Percebi que um dos tipos que estava a ser posto fora estava bebido e parecia provocar os seguranças (aquela coisa adolescente do "bate lá então"). 

Aparentemente os seguranças não ficaram contentes com o desempenho das suas funções (convidando a sair alguém que supostamente não mereceria ter entrado ou permanecer lá dentro) e foram ao encontro do tipo (uns 4 ou 5 diria eu). Vi um dos seguranças pontapear o turista na cabeça - acho que houve dois deles que lhe bateram - e poucos momentos depois estava um segurança deitado sobre o turista a asfixiá-lo (sim... isso mesmo.. a asfixiá-lo). Eu eu outro amigo - vendo aquela barbárie - aproximámos-nos e dissemos aquilo que qualquer duas pessoas com o mais elementar bom senso deveriam sentar-se tentadas a dizer. Perante os "parem com isso por favor", "não é necessário", "deixem-no ir" ou "a vossa função é precisamente evitar situações como esta" o meu amigo foi insultado e foi ainda ameaçado porque, aparentemente, algum(ns) segurança(s) pensavam que havia filmado a cena. Frases do género "vê a minha cara que eu não me esqueço da tua porque se o vídeo é publicado vais-me ver outra vez", houve ainda outro segurança que lhe pediu o telemóvel para se certificar que nada tinha sido filmado. Tudo isto num ambiente de raiva perante esta nossa atitude de censura daquele comportamento (...)

A preocupação dos seguranças com um vídeo não era fruto da sua capacidade de antecipar o que veio a acontecer dois anos e meio depois. Era apenas uma reacção ao que havia sido publicado duas semanas antes pelo Público: as imagens mostravam um segurança em funções a espancar repetidamente (a dada altura com a colaboração de um outro indivíduo) um homem, aparentemente bêbado e indefeso, na "Rua Cor-de-Rosa", no Cais Sodré. Naquela noite houve duas coisas que se tornaram claras. A primeira: que os seguranças do Urban Beach não tinham qualquer problema em aplicar a força extrema quando qualquer dose de força não era já necessária (assumindo que em algum momento, algum tipo de força tivesse sido justificada). E isto não é uma consideração subjectiva. Estamos a falar dum turista, claramente alcoolizado, de passada titubeante, que o casal amigo estava a conseguir afastar da porta do Urban. A segunda: ainda mais assustadora. O total sentimento de impunidade dos agressores. Aqueles homens agiram sem contenção, hesitação ou reflexão. Aqueles homens, claramente treinados, actuaram em grupo contra um indivíduo que parte da população masculina teria facilidade em derrubar sem a ajuda de outra pessoa. A impunidade foi tal que, à semelhança das imagens que tivemos o desprazer de ver esta semana, aqueles homens bateram e insultaram diante de uma plateia, no (suposto) exercício das suas funções. Havia dezenas de pessoas a assistir. Apenas um amigo e eu nos insurgimos. Ninguém na fila, em pleno ano de 2015 e nesta tão cosmopolita Lisboa, perdeu vontade de entrar na discoteca cujos seguranças acabavam de agredir de forma devastadora, um homem, bêbado e trémulo, pontapeado e atirado ao chão, prostrado física e psicologicamente, desrespeitado na sua mais elementar dignidade, vítima duma asfixia desnecessária e absolutamente bárbara. Naquele noite fui para casa com a sensação que, ao contrário do que disse ontem o advogado de um dos seguranças a propósito daquele vídeo  "(...) Foi um dia mau... foi um dia mau p'ro meu cliente. Um dia mau na vida dele. Apenas isso (...)", havia testemunhado apenas "mais uma noite na vida daqueles homens". É por isso que, quando leio todos os depoimentos disponíveis na internet não só os acho coerentes, como bastante verosímeis. É também por isso que acho que o Eduardo Cabrita, o recém-nomeado Ministro da Administração Interna (que, sou obrigado a reconhecer, não poderia ter actuado de forma mais imediata; o mesmo não se podendo dizer da autarquia e forças policiais), deveria ter algum pudor em dizer que “não faz sentido sequer colocar essa questão” quando lhe perguntam porque nada havia sido feito depois das (38) queixas existentes. Talvez se fosse um filho, sobrinho ou neto seu a apanhar pontapés na cabeça o ministro tivesse expressado uma opinião diferente. Talvez se os agentes da PSP não parecessem desincentivar (como sugerem alguns depoimentos à imprensa) os jovens agredidos a apresentar queixa, elas não fossem “apenas” 38. Talvez se a queixa referente ao episódio retratado no vídeo, tivesse levado menos tempo a ser registada que aquelas imagens a circular pelos telemóveis e computadores de meio Portugal, nos sentíssemos todos em melhores mãos. Talvez... talvez a gerência do Urban Beach e a administração do Grupo K tenham mesmo alguma responsabilidade nestes sucessivos espancamentos. E talvez o Gonçalo Rocha tenha razão, talvez eu tenha alguns preconceitos acerca do Urban. Mas não consigo deixar de pensar que... O único motivo que permite ao Urban Beach continuar a fazer dinheiro com as mesmas pessoas que parece disposto a maltratar, é a falta de solidariedade e consciência cívica de todos aqueles que, não tendo levado nunca pontapés na cara, continuam a ir ali sabendo que, naquela mesma noite e naquele mesmo lugar, é possível que uma cara com a qual se cruzem apanhe os ditos pontapés. A violência extrema que descobrimos naquelas imagens, não é explicada por um acesso de raiva único e irreproduzível. É a expressão de quem parece habituado a resolver os problemas à sua maneira. A falta de pudor com que se bate em público, é um esboço daquilo que se é capaz de fazer em privado. O sentimento de impunidade que aqueles homens exibem, sugere um historial pelo qual ninguém lhes terá exigido contas. Serve apenas de consolo a lição de que apresentar queixa não é afinal uma tarefa inútil. Ou acham mesmo que a divulgação isolada daquele vídeo, por mais selvagens que fossem os actos nele reproduzidos, teria conduzido ao encerramento do Urban Beach?

Obrigado a todos aqueles que, revelando coragem e responsabilidade cívica, apresentaram queixa. Há quem não tenha sequer a dignidade de, perante um espancamento completamente bárbaro e desnecessário, abandonar a fila e escolher outro sítio para dançar

(artigo actualizado às 10:52 do dia 16 de Novembro)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Incêndios 2.0



Lembram-se o que jornalistas e colunistas de todo o mundo ocidental, escreveram vezes sem conta, depois da vitória de Donald Trump? Que aqueles votos vinham da América profunda e que o grosso dos eleitores das grandes metrópoles jamais teria votado nele? Ninguém o disse categoricamente mas não consegui imaginar outro entendimento que não este: a opinião da população urbana importa mais que a da rural. Será que a vida de quem está na capital também vale mais que a de quem habita o interior? Ou por outra, será que estamos genuinamente preocupados com cada uma das vítimas dos incêndios? Ou sentimos apenas que 40 mais 60 são 100 e que – foda-se... – 100 é um número demasiado grande para olhar para o outro lado? As vítimas (mortos, feridos, desalojados, traumatizados) de Figueiró a Santa Comba têm pouca ou nenhuma voz. Não foram as mortes mas os números totais que elas perfizeram que tocaram o coração do país, geraram as ondas de solidariedade e cativaram os media. Porque estas pessoas – as que morreram agora, as que morreram em Verões passados e aquelas que vão morrer nos próximos anos – são quase sempre as mesmas: bombeiros e velhotes. Reportagens em Pedrógão mostram-nos idosos chorosos, às vezes ranhosos, desprovidos de capacidade de mobilização, destreza verbal ou telegenia. Será que sentimos realmente por eles? Será que sentimos por aqueles que, mais ou menos velhos, morreram em casa, nos carros, na rua, asfixiados e queimados? E por todos aqueles a quem, sobrevivendo, só restou chorar por quem já não puderam abraçar? À excepção do impacto brutal que uma centena de vítimas tem sobre todos, cada uma daquelas mortes pouco importa. Não geram por si mesmo dislikes, partilhas e notícias em escala que ponham um governo ou uma opinião pública em sentido. Onde é que está o Estado Social? No Facebook? E o nosso coração? A nossa formação, educação e cultura? No meu liceu havia dois bombeiros. Dois miúdos que costumavam ir fardados para a escola porque faziam parte do Regimento de Voluntários que havia ali ao lado. A farda não lhes granjeava reputação ou miúdas giras. Eram, na verdade... menos-cool-que-os-demais. Até Agosto de 2013, quando morreram 8 bombeiros em Agosto e foram aclamados heróis nacionais, o país inteiro parecia também... dar-lhes menos valor que aos demais.

Tinha cagado no Orçamento, no Sócrates e na Catalunha. Mas também eu fui sensível... aos números. Se os actores políticos (independentemente da sua cor) trabalhassem em função de outra coisa que não votos, talvez António Costa tivesse dito (e sentido o que disse) “depois deste ano nada pode ficar como dantes” em 2005 quando, Ministro (de Estado e) da Administração Interna, se registaram mais de 8.000 incêndios florestais, quase 350.000 hectares ardidos e 16 mortos (12 dos quais bombeiros). Mas se calhar nenhum de nós lhe exigiu isso. Se calhar nenhum de nós se esforçou, como aparentemente se estão a esforçar na Galiza, para lhe exigir isso mesmo

(artigo actualizado às 10:23)

domingo, 6 de agosto de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

domingo, 6 de setembro de 2015

Martina

Martina


A jornalista pediu-me que levasse a máquina fotográfica. Perguntou se me podiam filmar a fotografar alguém. Disse que sim que não me importava. Disse que sim que me podiam filmar. Mas disse também que podíamos dar uma volta, duas ou três, as voltas que o tempo permitisse mas que isso não lhe garantia qualquer imagem. O tempo passou. Tinha que partir e foi já nas despedidas que a Martina se cruzou connosco. Assim nasceu esta imagem. A jornalista e eu ficámos contentes. Espero que vocês e a Martina também

domingo, 12 de julho de 2015

Manuel Dantas

Manuel Dantas


Quando nos lembramos de começar a fotografar gente na rua. Quando nos propomos a retratar pessoas que nos despertam a atenção. Quando começamos a guardar e partilhar essas imagens que nos fazem parar, olhar para o outro lado ou espreitar por cima do ombro. Quando fazemos tudo isto há um momento – ele acabará por chegar mais tarde ou mais cedo – em que sentimos que já pouco ou nada conseguimos acrescentar de novo. E depois há o Dantas, o Manuel Dantas. Aquele homem que, quando nos preparamos para dar o mergulho possível entre as rochas da Praia da Luz, nos pergunta “podes-me ajudar a vestir isto?”. E a quem eu pergunto, “e eu posso tirar-lhe uma foto?”. O Dantas sim. Depois de seis anos a abordar estranhos e a publicar a sua imagem na internet o Dantas representa algo especial. Algo de novo

domingo, 31 de maio de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

Praia da Mareta

Praia da Mareta

Uma das coisas mais giras de ter um blogue onde se partilha o que quer que seja que nos rodeia é que, por cada vez que nos deslocamos, a nossa publicação se desloca também. Porque o que quer que aqui se partilhe acaba sempre por levar também muito dos nossos dias, das nossas vivências e das nossas recordações. A Praia da Mareta é apenas um desses muitos sítios. Um tanto ou quanto inusitado para uma publicação à qual me habituei a ouvir chamar de “blogue de moda” mas, na verdade, o mais óbvio dos sítios para aquilo que não é mais que uma página pessoal. E é por isso que quando publico uma foto da Mareta estou a fazer mais que partilhar uma imagem bonita de uma pessoa inspiradora. Estou também a documentar aquilo que é a minha vida, a minha (segunda) juventude e aqueles que me são próximos. E dou-me agora conta, com todo esta conversa, que não fotografava aqui há cinco anos. Desde 2010. Desde que fotografei o Bernardo, o Vitório e estes miúdos cujos nomes não me lembro. E no fundo ao publicar esta foto estou, mais que a partilhar o que quer que seja, a documentar a minha memoria futura. Que é como quem diz, a assegurar que um dia mais tarde ela não se me varre das recordações

terça-feira, 24 de março de 2015

Alexandre

Alexandre Rapaz 1 Alexandre Rapaz 2 Alexandre Rapaz 3 Alexandre Rapaz 4 Alexandre Rapaz 5 Alexandre Rapaz 6 Alexandre Rapaz 7 Alexandre Rapaz 8

Não fotografo com a mesma frequência. Porque é raro sair de casa com a máquina na mão mas também porque, das raras vezes que o faço, pareço necessitar de mais motivos para abordar alguém. Nenhum motivo em concreto. Ou pelo menos nenhum que me ocorra especificar. Se bem que agora parece fácil. A imagem do Alexandre na sua bicicleta a rolar sobre uma superfície grafitada com a Vasco da Gama em pano de fundo. Foi esse o motivo

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Faz hoje meia dúzia de anos que publiquei aqui a primeira foto


Este Verão descobri que o 31 de Agosto é o dia mundial do blogue. Daquilo que li e ouvi percebi duas coisas. A primeira é que boa parte do interesse que os media descobrem nos blogues é por via da criação, por parte dos chamados famosos, das suas páginas pessoais (assumindo sequer, pese embora a irrelevância que essa questão representa para mim, que terá sentido chamar de “blogue ou página pessoal” a algo que, pelo que percebi, nem sempre é gerido pela própria pessoa). A segunda, que me importa bastante mais, é que o único foco ou interesse que foi atribuído à blogosfera é aquele que aparece pela via comercial. O Alfaiate faz hoje 6 anos. E uma das coisas que mais me orgulho (que não faz de mim melhor nem pior, faz-me apenas sentir bem com isso) é que a abordagem editorial deste blogue foi sempre a mesma. Viessem cá 10, 100, 1 000 ou 10 000 pessoas por dia. E é isso que digo sempre que alguém me “acusa” de esquecer este blogue. Digo que é impossível estar esquecido. Que (quase) tudo o que conquistei profissionalmente na última meia dúzia de anos decorre directa ou indirectamente daquilo que fiz aqui e do que aqui foi feito me permitiu fazer noutros sítios. Mas voltando a 31 de Agosto... Hoje, sobre os blogues, parece importar apenas o retorno que geram a quem pague para ter lá os seus produtos ou serviços. E não, não me faz confusão alguma que se ganhe dinheiro com um blogue (até porque fiquei bastante contente da primeira vez que isso me aconteceu). Nem mesmo que se ganhe dinheiro com os conteúdos de um blogue (ainda que, por opção pessoal, sempre me tenha recusado a fazê-lo). Mas faz-me confusão que se ganhe dinheiro com um blogue falando com as pessoas como se se tivesse acordado uma manhã a pensar num produto ou serviço quando na verdade se foi despertado por um e-mail ao qual se respondeu com um orçamento. Faz-me confusão que se passe por cima (ou pelo menos foi isso que senti que os media fizeram) de tudo aquilo que – na minha cabeça – é afinal um blogue. Gosto de pensar que se entrasse num blogue de menswear encontraria as marcas ou produtos que mais inspiram o seu autor e não aquelas que entenderam dispensar-lhe parte do orçamento. Que se procuro um apaixonado por viagens ele me vai sugerir os insights mais genuínos sobre um local e não o hotel que oferece uma estadia anual à sua família. Talvez me bastasse avistar alguma coisa que identificasse, de alguma forma, as publicações contratadas  porque - apesar de absolutamente elementar - não parece estar claro para muitas das referências cibernáuticas que aquilo que alguém se dispõe a pagar-lhes não é um conteúdo editorial (admitindo que, alguma coisa de editorial um conteúdo dessa natureza possa ter). Talvez me bastasse pensar que um blogue ainda é, mais que outra coisa qualquer, um espaço onde determinada pessoa publica aquilo que pensa ou em que mais acredita. Talvez me bastasse saber que, quando a natureza de um artigo é comercial, essa informação é dada ao leitor (reconhecendo que orçamentos e transferências bancárias não são necessariamente mutuamente exclusivos da simpatia pessoal que alguém que está a ser pago possa, por hipótese, nutrir genuinamente por determinado produto ou serviço). Ou será que o futuro, se me permitem a caricatura, é visitar um blogue assinado por um político de direita e ler um artigo que lhe foi encomendado por um partido de esquerda (ou vice-versa)? É que o presente passa já por assistir a que se digam maravilhas sobre o que quer que seja porque, chamando às coisas aquilo pelas quais elas pedem para ser chamadas, houve lugar a um pagamento. Não sou o Velho do Restelo nem os blogues têm que permanecer como nasceram, estáticos e imutáveis, ao sabor da minha vontade. E posso até aceitar, apesar de lhe reconhecer pouca dignidade, a tese de que cada um faz o que quer e bem lhe apetece no seu próprio espaço. Gosto apenas de pensar que a verdade e o respeito pelo próximo (ainda mais por aquele que nos lê) são tendências intemporais, não importa o ano nem a estação. É espectacular e tremendamente inspirador pensar numa dada plataforma onde eu ou outro qualquer Zé ninguém possa publicar de forma livre e gratuita o que quer que seja e (se for o caso), com os seus méritos e deméritos, conquistar uma legião de seguidores, passar a escrever para ali, a fotografar para acolá ou a fazer para o resto do mundo o que quer que seja que o seu blogue atestou que realizava ou executava de forma tão singular. Mas não me parece correcto mentir às pessoas. E menos correcto ainda (tal é o surrealismo moral da coisa) me parece mentir a quem nos segue e que, precisamente por o fazer, é responsável pelo nosso sucesso, mudança de vida ou o que quer que determinado blogue tenha feito pela biografia do seu autor. Por aqui não se preocupem. Censurem-me as vezes que acharem necessário por cá vir menos do que devia. Mas retenham o seguinte: como há exactamente 6 anos ou no dia que aqui vieram pela primeira vez... e para o bem e para o mal... por aqui está tudo na mesma